quarta-feira, 11 de novembro de 2009
Explosão
E que, jogando mal que seja, o Ortigozza meta um golaço chorado de carrinho, pra ganhar, afundar o outro time e gritar na cara dos donos do poder.
E então tudo estará no seu devido não-lugar, sem resultados arranjados, sem títulos programados. Os malditos darão com o burro n'água e que os sacos de cimento roubado lhes caiam na cabeça. Que exploda tudo, pra depois restar só mesmo o futebol.
terça-feira, 3 de novembro de 2009
E por que é mesmo que os homens morrem?
Lévi-Strauss virou estrutura.
quarta-feira, 21 de outubro de 2009
Passagem
É nosso ritual - doloroso! - de purificação.
Vocês se lembram daquele momento, talvez o mais perigoso, o mais delicado de nossa vida. O momento em que surgimos e nos erguemos imponentes. Era 1942: morria o Palestra, tomado por oportunistas como símbolo da nação inimiga. Morria o brasileiríssimo Palestra, líder, sempre líder. De cinzas esverdeadas que nem chegaram a cair, formou-se o Palmeiras. Em um único jogo, a redenção. Nascemos e renascemos campeões. Somos o Palestra Itália, somos o Palmeiras. Morremos líderes para nascermos campeões.
Essa é nossa sina.
Estamos morrendo, perdemos hoje, perdemos domingo. Não é fácil, nunca será, toda morte é dolorosa.
Estamos morrendo líderes.
Estamos morrendo líderes e no fundo sabemos, sempre soubemos, o que virá.
quarta-feira, 14 de outubro de 2009
BZZZZZZ
Mas me baixou um Álvares de Azevedo misturado com Laerte e eu curti pra caramba.
Dead Flies Art (15 pics)
domingo, 4 de outubro de 2009
Se Murió La Negra
A todos...
Somos los nietos, los hermanos, los sobrinos, el hijo de quien fue para nosotros algo más y distinto que una gran artista popular. Con ella compartimos la vida, las alegrías y las angustias privadas. Porque esa gran artista fue además nuestra abuela, nuestra hermana, nuestra tía, nuestra mamá. Es por eso que queremos llegar a ustedes desde ese lugar íntimo, lejos de la severidad y la dureza de los comunicados oficiales: porque sabemos que también la quisieron y la siguen queriendo aún mucho más allá de la cantante y de la artista que los acompañó tantas veces, a la que han hecho parte de su familia aún sin tener lazos de sangre.
Es desde este lugar que queremos contarles que Mercedes -la mamá, la tía, la abuela, la hermana-abandonó este mundo el día de hoy. Pero también queremos decirles que estuvo siempre acompañada-inclusive cuando ya no podía saberlo- por un desfile interminable de amigos y artistas populares, y en cada uno de ellos: Ustedes. Y que a pesar de lo triste de cualquier agonía, pasó esos últimos momentos en paz, peleando aguerridamente contra una muerte que terminó ganándole la pulseada.
Por cierto estamos conmovidos y queremos compartir con ustedes esta tristeza. Aunque, al mismo tiempo, nos queda la tranquilidad de que todos hicieron lo posible- incluida nuestra Negra- para quedarse un ratito más entre nosotros.
Lo que más feliz la hacía a Mercedes era cantar. Y seguramente ella hubiera querido cantarles también en este final. De modo que así queremos recordarla y así los invitamos a hacerlo con nosotros.
Infinitas gracias por ese acompañamiento que jamás dejó de estar presente.
Familia de Mercedes
E vai ainda, por aqui, um das músicas que me marcaram desde sempre e me faz ouvir de olhos fechados ainda hoje e sempre.
Volver a Los 17 - Mercedes Sosa e Milton Nascimento
sábado, 3 de outubro de 2009
Rio 2016
Umas coisas:
1 - É maravilhoso ter Copa e Olimpíada por aqui. Maravilhoso.
2 - As críticas são muito válidas e cabe a nós decidir que Copa e que Olímpiadas teremos. Vai ser difícil escapar da elitização do evento, da "higienização social" que vai ser promovida. A nossa tarefa é lutar contra isso, sabendo que será batalha perdida.
3 - Chupem, barões do café. Essa locomotiva do Brasil anda pra trás e cheira a merda. Chupem Kassabs, Malufs, Serras, Juvenais, Dualibs e Mustafás.
4 - É preciso pensar, imediatamente, como fazer a Copa e os Jogos Olímpicos de uma forma que promova educação e saúde, fugindo é claro, das noções de educação e saúde da elite estúpida, representada pelos imprestáveis Teixeira e Nuzman.
5 - A crítica pela esquerda é que futebol (e esporte em geral) aliena. Eu acho que, enquanto acontecem os jogos, pode até ser; criam um mundo de exageros e de representações, em nada condenáveis moralmente. E, pelo contrário, é mais uma chance de politizar, na contra corrente do ufanismo que será proposto pela mídia e pelos barões.
quinta-feira, 1 de outubro de 2009
Há blogs
Tem aqueles que se acham sérios demais e aqueles que se acham gozados demais. Raramente qualquer um deles é simplesmente despretensioso.
Bom, aqui eu não quero me meter a falar o que não devo: não pretendo me contrapor de forma alguma à brilhante, porém ainda incompleta, seção O Maravilhoso Mundo dos Blogs, do blog A Latrina.
O negócio é que esse tal de Utak fez um blog e... ele fala por si só:
"Pra quem não me conhece, sou Utak, do blog Heaven's Door e últimamente tenho sentido vontade de postar "besteiras" na internet, essas coisas estilo o Peçanha, ou o Yuri."Pois lá no Maravilhoso Mundo nos Blogs a gente encontra respostas a altura. Então nem vou me preocupar.
Daqui.
E, afinal, esse novo blog bobo pelo menos fez eu conhecer a Onda do Google (não entendi bem, mas parece que vai ser uma coletânea de canções tipo "O barquinho vai, a tardinha cai...", "Agora eu já sei da onda que se ergueu no mar" e "Onda onda, olha a onda!")
terça-feira, 15 de setembro de 2009
Uma angústia e uma melancolia
O ficar sozinho numa festa, que já era uma volta, trouxe, como que em uma lembrança que dolorosamente se encontra viva e cativante, esses sentimentos.
E a canção do berço, do Drummond, faz o papel da angústia que não tem me deixado dormir.
E a vaca estrela e o boi fubá, do Patativa do Assaré, no som de Pena Branco e Xavantinho, trazem a melancolia, que se não é boa, é de uma tristeza serena, que me deixa chorar em paz.
Canção do Berço
Carlos Drummond de Andrade
O amor não tem importância.
No tempo de você, criança,
uma simples gota de óleo
povoará o mundo por inoculação,
e o espasmo
(longo demais para ser feliz)
não mais dissolverá as nossas carnes.
Mas também a carne não tem importância.
E doer, gozar, o próprio cântico afinal é indiferente.
Quinhentos mil chineses mortos, trezentos corpos
[de namorados sobre a via férrea
e o trem que passa, como um discurso, irreparável:
tudo acontece, menina,
e não é importante, menina,
e nada fica nos teus olhos.
Também a vida é sem importância.
Os homens não me repetem
nem me prolongo até eles.
A vida é tênue, tênue.
O grito mais alto ainda é suspiro,
os oceanos calaram-se há muito.
Em tua boca, menina,
ficou o gosto do leite?
ficará o gosto de álcool?
Os beijos não são importantes.
No teu tempo nem haverá beijos.
Os lábios serão metálicos,
civil, e mais nada, será o amor
dos indivíduos perdidos na massa
e só uma estrela
guardará o reflexo
do mundo esvaído
(aliás sem importância).
Vaca Estrela e boi Fubá
Patativa do Assaré
Seu doutor, me dê licença
pra minha história contar
Hoje eu tô na terra estranha,
é bem triste o meu penar
Eu já fui muito feliz
vivendo no meu lugar
Eu tinha cavalo bom
e gostava de campear
Todo dia eu aboiava
na porteira do curral
Eeeeiaaaa, êeee Vaca Estrela, ôoooo Boi Fubá
Eu sou filho do Nordeste,
não nego meu naturá
Mas uma seca medonha
me tangeu de lá prá cá
Lá eu tinha o meu gadinho, não é bom nem imaginar
Minha linda Vaca Estrela
e o meu belo Boi Fubá
Aquela seca medonha
fez tudo se atrapalhar
Eeeeiaaaa, êeee Vaca Estrela, ôoooo Boi Fubá
Não nasceu capim no campo para o gado sustentar
O sertão se estorricou,
fez o açude secar
Morreu minha Vaca Estrela,
se acabou meu Boi Fubá
Perdi tudo quanto eu tinha, nunca mais pude aboiar
Eeeeiaaaa, êeee Vaca Estrela, ôoooo Boi Fubá
domingo, 13 de setembro de 2009
11 de setembro
Há 36 anos, o sangue de um homem chamado Salvador marcou o chão desse palácio.
A partir de então, e por 17 anos, no Palácio viveu Augusto, que passou a colecionar mortes.
O sangue de Salvador, sob os pés de Augusto, não secava nunca. O sangue de Salvador multiplicava-se pelas paredes e pelo teto.
O Palácio da Moeda tornou-se apenas sangue, e aos poucos toda a cidade e todo o país era sangue.
Em poucos meses, todo o país foi povoado com o sangue de dezenas de milhares de pessoas, mortas e torturadas sob suas botas de militar.
Em poucos meses, a terra jorrava sangue quente e cada vez mais vivo. Não houve luto, não houve fim.
Augusto, sob o calor de tantas vidas, era o único que apodrecia. Seu corpo era frio, inerte, inexpressivo. Sua carne apodrecia sem morrer.
Augusto, um homem como qualquer outro homem, cobriu o chão de sua pátria com o sangue pulsante de seus conterrâneos. E carregando tantas chagas, sorria ao sentir o cheiro das laranjas.
Não sabemos se conversava com seus fantasmas. Não sabemos se pedia para Victor tocar canções em um violão de sangue. Não sabemos se sentia o gosto das laranjas ou o gosto de terra e lágrimas.
Sabemos que sua carne apodrecia naquele sem fim.
Augusto precisou depôr. Abandonou o Palácio e despediu-se das laranjas. Todo aquele sangue, pôde, aos poucos, penetrar pelo chão do Chile e povoar a terra.
O Chile carrega na terra o sangue vivo de Salvador e de todos os outros. Pela salvação da terra, o sangue permanece vivo: o chão não poderia suportar o luto.
Augusto desapareceu, esqueceu. Esqueceu o inesquecível: o seu sangue era o único sangue seco, velho e apodrecido.
Tinha nos bolsos muito ouro, e um documento que lhe atestava a insanidade. Nunca julgou-se, não pôde ser condenado.
Augusto José Ramón Pinochet Ugarte estava morto. E na tarde de 10 de dezembro de 2006, a última gota de sangue lhe seca o coração, enfim.
O Chile de sangue, sangue de Allende e Victor Jara, sangue das milhares de pessoas mortas no estádio Chile, esse Chile sonha com a liberdade e nutre-se com o sangue que a terra jorra.
Esse Chile é uma paloma e canta livre os golpes sofridos há 36 anos.
quarta-feira, 9 de setembro de 2009
E é por isso que os homens morrem: A Morte (I)
Veio de viagem, como que de outra cidade, em outro canto do mundo. Veio como que viajando, como sendo um canto do mundo, bem do fundo. Certamente - e isso é tudo menos certeza - veio de alguma cidade invisível, lá por aqueles lados, que tanto já visitei, e onde muito vivi.

A Morte (I)
(ou: descobri que odeio cemitérios)
Na região de Canzara os ritos fúnebres sempre foram levados muito a sério. Quando uma pessoa morre, parece que até o ar muda subitamente de cheiro. A notícia se espalha como sementeira alada, corre no vento, e todos os que ficam sabendo vestem imediatamente o manto amarelo de couriú, que em um dia se alaranja, em dois se avermelha, em três se amarronza, em quatro anegra. Assim os campos de Canzara vão se colorindo gradualmente, de dentro pra fora, e ao mesmo tempo de dentro pra fora vão perdendo a cor.
Durante uma semana cada pessoa age de acordo com as regras do couriú: os que vestem o manto amarelo lavam a casa, as roupas e os cabelos, não podem comer e também não podem falar; os de manto laranja comem pão-de-frango e folha de canhacheira lambida no fogo de vela (é o dia favorito de todos), passam o dia cantando ou rezando, e dependendo da lua têm que cortar os cabelos; os de vermelho pintam o corpo, saem de casa com lanças e só podem comer o que puderem matar; os de marrom quebram suas lanças e se alimentam de cascas de árvores, raízes, folhas e flores, se houverem; os de negro se banham na lama e voltam para casa, onde, depois do último canto, voltam às suas vidas normais. Poucos dias depois o couriú se desprende do manto e só aí as pessoas param de usá-lo. Dizem que é o sinal de que o mundo pode continuar como era antes.
As cores do couriú regem também a preparação do corpo. Os mais próximos do morto clamam para si, através dos versos tradicionais, os deveres para com o corpo. Quando é necessário, o resto da comunidade executa as regras do couriú no lugar dessas pessoas, que têm deveres diferentes. No dia amarelo, é preciso lavar o corpo e preparar a madeira para o caixão. A madeira precisa ser de três árvores diferentes, escolhidas pela primeira pessoa. No dia laranja, usando velas laranjas, deve-se queimar os cabelos e todos os pêlos do morto e preparar as tintas para o caixão. As tintas também devem ser feitas com três pigmentos diferentes, escolhidos por uma segunda pessoa. No dia vermelho, enquanto todos os outros deixam suas casas, os preparadores pintam cada milímetro de pele do corpo e constroem o caixão com todos os cuidados. No dia marrom, ainda mais sozinhos, os preparadores terminam os detalhes finais do caixão, cobrem-no de pinturas, forram-no com terra, põe o corpo dentro dele e o fecham com sete fechos. Depois limpam a bagunça, a si mesmos, uns aos outros. Esperam sozinhos pela chegada dos outros. Choram, talvez.
No dia negro todos voltam para a cerimônia da morte. Voltam cobertos de lama, vestindo mantos negros, famintos e ferozes. Nos outros lugares esse é um dia tranquilo em que tudo volta ao normal assim que a lama se dissolve na água do banho, mas, aqui, onde um homem morreu, é um dia muito estranho. Das sombras das casas surge um grupo de homens (?) vestidos de preto com máscaras pretas de feras. Não se vê nenhuma parte de seus corpos, e ninguém se aproxima por causa do mêdo e do cheiro de morte. Ninguém diz nada: eles levantam o caixão pintado e carregam-no até um lugar vazio decidido por eles, enquanto os outros seguem, silenciosos. Pousam o caixão no chão. Tiram de dentro do manto armas colossais --- machado, facão, picareta, foice, martelo, enxada, forjados, polidos e afiados para serem grandes, negros e brutais. Com um guincho de fúria o primeiro machado desce sobre o caixão dividindo-o no meio, seguido pelo urro da picaretada, pelo estrondo do martelo que lança pedaços de madeira sobre os demais; a comunidade urra, recua, se excita e se assusta, as lâminas sobem e descem, as feras gritam e rugem e saltam sobre o corpo enquanto despedaçam-no com sua fúria, o camunidade grita e canta os cantos de morte, de liberdade, de mêdo, a carne, a terra e a madeira voam, a fúria e a morte voam, os ossos se partem junto com as tábuas, e quando acaba as feras rugem levantando as armas e a comunidade pula sobre os restos (carne osso madeira terra tinta) e os agarra, os disputa, cada um ansioso por enterrar um pedaço, o maior, mais fundo.
De repente a comunidade se dispersa. Banho, comida, a vida segue em frente. As feras já desapareceram faz tempo. As pessoas estão cansadas. A terra mexida e novamente vazia (ao menos na superfície) ficará abandonada até que couriú se desprenda das nossas roupas. Então, tudo será como sempre foi.
Os tempos
Passou o tempo e isso na real não importa nada - tudo volta (com atraso?). Atraso nenhum. Os tempos são outros tempos e o relógio serve pouco na temporalidade de cada uma de nossas atividades.
Como diz Tim ingold, de quem já falei aqui, as repetições são mais rítmicas que metronômicas. O metrônomo (e estou para-traduzindo o Ingold - p.197) divide o tempo em segmentos iguais, enquanto o ritmo não pode se separar do próprio movimento, do próprio viver. O tempo no qual realizamos nossas atividades não pode ser separado das próprias atividades.
O tempo não passa inexoravelmente, mas as atividades relacionam-se umas com as outras e é aí que o tempo é percebido.
Ótimo. Tudo a ver com a minha pesquisa e com o recente ritmo deste blog.
Somos los nietos, los hermanos, los sobrinos, el hijo de quien fue para nosotros algo más y distinto que una gran artista popular. Con ella compartimos la vida, las alegrías y las angustias privadas. Porque esa gran artista fue además nuestra abuela, nuestra hermana, nuestra tía, nuestra mamá. Es por eso que queremos llegar a ustedes desde ese lugar íntimo, lejos de la severidad y la dureza de los comunicados oficiales: porque sabemos que también la quisieron y la siguen queriendo aún mucho más allá de la cantante y de la artista que los acompañó tantas veces, a la que han hecho parte de su familia aún sin tener lazos de sangre.
