sábado, 15 de dezembro de 2012

Lágrimas (Boteco do Futebol)


Originalmente publicado em: http://botecodofutebol.wordpress.com/2012/12/08/lagrimas/

Este ano chorei muitas vezes, nenhuma delas de tristeza, embora a dor exista e seja constante. Meu choro sempre veio pela beleza do amor que emerge dessa desgraça que é a vida. Choro de amar mais do que é possível demonstrar, choro pelos lampejos de sentido que surgem quando nada mais faz sentido, choro pelos abraços, toques, olhares que insistem em emergir, como a famosa flor de Drummond, ou as raízes insistentes e libertárias que, junto às bicicletas, transformam o asfalto. Meu choro se compara à atitude de quem se depara com o divino, de quem tem fé, de quem se cega com a luz que explica tudo. De quem, como Joaquim, tem devorado seu silêncio, sua dor de cabeça, seu medo da morte.
Cinco de julho de 2012 foi um dia difícil: o caos anunciado, decorrente da falta de transporte público, nos fez preferir seguir de carro para o município de Barueri. A passagem em frente a nossa casa derrubada era obrigatória e serviu para munirmo-nos de todos os fogos que precisaríamos para a noite. A praça de pedágio, emblema tucano, estava intrafegável: quem nos dera termos escolhido uma bicicleta ou o trem (que como milagre, funcionaria até mais tarde que o usual). A procissão das máquinas seguiu em seu ritmo, entoando cantos e enchendo a via de fogos, fumaças e bandeiras. Os bravos homens, aqueles que têm licença para matar, já tinham atuado em defesa de algum tipo de ordem e, desta vez, não apanhamos (embora cicatrizes de guerra tenham surgido na ocasião).
Na cancha moderna, de uma maldita empresa itinerante, o jogo era nervoso e jogávamos muito mal. Um dos nossos, que uma semana depois seria visto como heroi, sofria, disperso em campo. No final do primeiro tempo, em um de nossos únicos ataques, o bandido de apito e camisa preta teve um lapso e marcou-nos um pênalti. O tempo parou, o passado foi presente e futuro, e levantei as duas mãos, que seguravam fotos velhas de quem não poderia deixar de estar onde o Palmeiras estivesse. Comemoramos, meu pai, meu avô, eu, Leslie, Guilherme, Aníbal, e tantos outros, quando a camisa verde rompeu o asfalto, atravessou a barreira imaginária do gol e iluminou as trevas em que temos tido que viver, nós, os torcedores. O choro impressionado: existe algo de eterno, absoluto, incorruptível. Palestra, Palmeiras.
***
Em onze de novembro, o Palmeiras jogava no que seria o jogo em que nosso adversário se sagraria campeão. A derrota se configurava, para nosso desespero e cansaço. Uma semana depois, seríamos rebaixados para a segunda divisão do Campeonato Brasileiro (aquele que já vencemos 8 vezes). Nossos gols não saíam e os deles surgiram. Não poderíamos nos livrar do rebaixamento, mas a camisa fez questão de nos lembrar que um jogo é um jogo e qualquer resultado é possível, mas o Palmeiras não é um time, é nossa fé, é nossa história. É nosso, a despeito de carteirinhas de sócio, de diretores falastrões. Chorei inconsolavelmente com os dois gols que nossa camisa fez, empatando o jogo – por mais que não fosse possível evitar a derrota. A camisa nos lembrou de todos os gols já marcados, de todas as vezes que caminhamos pela Turiassu, de todas as vezes que cantamos, de todas as pessoas que amamos. Nos lembrou que há esperança no mundo, que precisamos lutar contra mandos e desmandos da emissora que manda no futebol, de seu machismo escroto, contra as relações de poder, contra os discursos de ódio. A camisa nos lembrou que o Palmeiras é o que há de mais lindo no mundo. O Palmeiras é nosso. Mais que isso: o Palmeiras somos nós.

sábado, 22 de setembro de 2012

Liquefação (Leslie)

Ó desaventurados televisores
que possam renascer como liquidificadores.
Oremos.

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

18 meses depois

Isto, que não existe mais, pode voltar à vida? Voltará como renascimento ou como farsa?

Sentimos vergonha ou orgulho do que vivemos aos vinte e tantos anos?

sexta-feira, 4 de março de 2011

Viagem

Pro Hermeto.

Pra todo mundo
pão torrado e cheiro de água pura
barro-vapor e mosquito zunindo
recipiente de energia volátil
voo rasante verde encanto
um peixe brilhante na barriga
e o gelo morno do mergulho
no tudo

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Versinhos: arrumação

Nas pastas e gavetas
rascunhos de histórias
cartas não entregues.
(27/01/11)

Versinhos: madrugada

Caros fantasmas
da madrugada,
saúdo-vos com um belo
dum tapa

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Janela sobre o choro (com a licença de Galeano)

A lágrima seca.

Sobra o sal
no rosto
(e o sal - terrível - torna pustulenta a face)


A lágrima seca e o sal e o
pus
exalam
o cheiro sufocante-e-claro
um cheiro de morte

(07/10/10)

domingo, 30 de janeiro de 2011

Me ensina como faz?

"Era um burrinho pedrês, miúdo e resignado, vindo de Passa-Tempo, Conceição do Serro, ou não sei onde no sertão."

Diz aí, Sete-de-Ouros, como faz.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

sábado, 27 de novembro de 2010

Outros tempos

hoje sonhei que foi só o primeiro tempo

a foto é do pacaembu, 24/11/10

(e não tem a ver só com futebol)

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Um arquivo

Onde está você
Se o sol morrendo te escondeu?
Onde ouvir você
Se a tua voz a chuva apagou? 

(Oscar Castro Neves e Luvercy Fiorini)

Que é isso que se faz por aqui? Que é isso que eu escolho mostrar, arquivar?

Há sei lá quantos anos, mantenho um arquivo de mim mesmo, uma coleção de imagens, recortes de jornal, pedaços de vida, mortes. O que é isso que vai sobrar, em bits, em pixels, em qualquer lugar?

E se eu sumir e se for esquecido, e se não for? E se alguém encontrar tudo isso no lixo, em algum canto esquisito da internet, quando tudo já for obsoleto e velhaco?

Acho que é justamente por isso que mantenho isso vivo, às vezes capenga, outras ativo. É pra que em algum momento alguém se apaixone. Essa pessoa, um escafandrista ou um astronauta, vai encontrar todos esses recortes, vai pensar nas coisas que eu pensei, e na ordem instável deste arquivo bizarro. E quem sabe, encontre em outros lugares meus cadernos, as músicas que cantei e as danças que fiz quando ninguém olhava. Se encontrar, vai reconhecer sobre o que silenciei, sobre o não dito, sobre os ciúmes doentios, sobre a vergonha escondida? E terá noção que ainda assim, mantive silêncio sobre o silêncio e sobre o silêncio?

Esse escafandrista (ou astronauta)... será que vai ser outra pessoa que eu mesmo? E será que esse arquivo ainda dirá sobre mim? Ou será que quando me tornar memória serei apenas personagem daquele que me encontrar?

Hoje a noite não tem luar, tenho sede, ouço uma música triste e quero minha amiga comigo.
Amanhã, depois que isto terminar, hoje ainda terá sido assim?