sexta-feira, 6 de agosto de 2004

[Bocejo]

Quando se está com sono, não se é coerente. Nunca se é coerente. Mas menos coerente ainda se é quando se está sonolento. Contudo, num estado sonolento, o fluxo de idéias ocorre naturalmente. Escreve-se sem olhar para trás. Não é necessário que haja lógica; a falta dela é justificada pelo estado no qual se encontra. Eu estou com sono. Mas não muito. Meus olhos se fecham porque ardem. Meus olhos se fecham porque ficaram abertos por um dia inteiro. Uma semana inteira. Meus olhos estão cansados. Eu estou cansado. Mas não estou com sono. Ao menos, não muito sono. Não aquele sono que desintegra qualquer possibilidade de lógica. Entretando, não custa lembrar que este que escreve raramente faz lógica, mesmo quando totalmente lúcido e acordado. Mas o que importa? O pato está na ratoeira. Ele está de volta à ratoeira. Ele tem medo de sair da ratoeira. Ele está no lugar errado e sabe disso. Mas não sai da ratoeira. Não sai da ratoeira. Não sai da ratoeira. Ele sabe sair da ratoeira. Mas não sai da ratoeira. Não sai da ratoeira. Quem sabe um dia ele saia? Por que não? Talvez ele esteja tomando corangem. Ou pensando se vale a pena sair da ratoeira, lugar de ratos e não de patos. Lugar de ratos? Do outro lado do Equador, Inglaterra. Instituiram uma lei segundo a qual, qualquer cidadão que sorrir em fotos três por quatro receberá uma multa. Os motivos alegados são a segurança nacional contra ataques terroristas e a necesstidade do cumprimento da etiqueta. Minhas roupas têm etiquetas. Elas me incomodam. Eu as corto. Fico muito melhor sem elas. Etiquetas não contém informações de suma importância para nada. E, as poucas que contém informações importantes, não são cortadas. Podem ser úteis. Mas nesse caso, elas mostram alguma utilidade. Sorrir em fotos três por quatro vai contra a etiqueta. E daí? Qual o motivo? Qual o objetivo? Não enxergo. Não entendo. Tenho cinco graus de miopia num olho e cinco graus e meio de miopia noutro. Meus olhos querem fechar. Estão cansados. Ardem. Sorrir impede o reconhecimento de pessoas? As pessoas não riem? Como podem não rir? Não riem de si mesmas? Não riem das próprias desgraças? Não riem das próprias glórias? Não riem? Não se pode rir. Não se pode rir? Não se pode rir. Cada garça que voa, me faz chorar. Para onde ela vai? Qual será o seu lugar? Por que não se pode rir? Riam! Por que não riem?! Por que não riem? E o terrorismo? O terrorismo sorri em vossas caras. O terrorismo sorri. Provocante. Apaixonante. Seguro. De que adianta estar seguro de algo? Se esse algo é inquestionável? E de que adianta protegermo-nos? Proteger nossas verdades também inquestionáveis que podem estar mais erradas que as idéias que julgamos impensadas e ridículas? Toda verdade é ridícula quando impensada. Somos ridículos. Sois ridículos. São ridículos. O ridículo é motivo para riso. Por que então não rimos? Sorrimos? Ou será que rimos? Não se deve rir? Deve-se rir. Deve-se rir? Creio que sim. Não creio em nada. Não nos deixam rir? Como não nos deixam rir? O riso é uma arma mortal e benéfica. A etiqueta nos controla para que não queiramos rir. Mas queremos rir. Por que não rimos, então? Por que nos submetemos a um ser demoníaco que nos impede de rir. Rir! Rir! Rá rá rá rá rá rá! Xinguem-me! Comam-me! Chutem-me! E o pato está na ratoeira. Isso é normal? É normal? E rir? É normal? Uivar? Gritar? Correr? Morrer? Amar? Feder? Beijar? Ficar nú? Ficar nú é normal? É? O pato está na ratoeira. Isso é normal. Um corpo parado tende a permanecer parado. Trabalho voluntário é apenas para voluntários. Queiram. Se não quiserem, não queiram. Fome sono sede frio calor desconforto vento. Descobri que não me amo. Na verdade estou morto. Queria me amar. Mas acabei por me matar. Sou agora um pato morto na ratoeira. Um Yuri morto. Gotas de água caem nas minhas pupilas fechada me levando à loucura. Mas um ser estranho ser vem e me leva para um planeta idêntico ao meu. As pessoas são felizes. Não há doenças. A morte é bela e serena. Tudo é belo e perfeito. Passo a viver com eles. Em pouco tempo, eu os trasformei em seres mentirosos, canalhas, sujos como eu. Então eu choro. Eu chorei há pouco tempo. Não sei por que eu chorei. Mas chorei. Chorei por amar. Amo muita gente. Sou efêmero. Ou sou eterno? Sou efêmero apesar de eterno. Vou para Bora-Bora. Vou uivar pra lua. Gritar. Latir. Vou escrever algo com algum sentido pra variar. Meu próximo post terá sentido. Pelo menos tentarei colocar sentido nele. Mas estou cansado. Com sono. Não tenho obrigação nenhuma de colocar sentido no que eu escrevo. A arte de escrever palavras ao acaso. Paralelepipedo. Criança. Estática. Declive. Cripta. Cubo. Curva. Chocolate. Grama. Bilininotomatocleitossauro. Sim. Dalai Lama. Anomalocaris. Urtiga. Camundongo. Uva. Chuva. Bulbo. Nuggets. Italianão. Cérbero. Pum. Azul. Verde. Geleca. Fantasma. Mochila. Veneno. Palhaço. Roseira. Bumerangue. Merengue. Pateta. Esfera. Cola. Terminal. Dançante. Criptônio. Peço desculpas. Não faço sentido. E daí? E daí? Rá rá rá rá rá! E outro rá para você. Ninguém vai me proibir de rir. Nem esta etiqueta chata que está no meu roupão. Eu canto! Eu sou feliz sim. Ninguém pode ser feliz o tempo todo? Pois veja só! Era uma vez - vejam vocês! - um passarinho feio que não sabia o que era e nem de onde veio. Então vivia, vivia a sonhar em ser o que não era, voando, voando com as asas, asas da quimera. Não tenho ética nem cidadania. Minha foto três por quatro ostenta um colossal sorriso. Trasnmissão de força. A força normal age no mesmo corpo que aplica e transmitte a força a outro corpo. A resultante é, portanto, nula. Sobre o que eu estava falando? Já perdi o sono. Completamente. Mas não o cansaço. Sono é, até certo ponto, psicológico. Cansaço, até certo ponto, também. O calor não é psicológico. Relativo, talvez, até certo ponto. Mas psicológico não. O queijo suiço dissolve-se no estômago. O queijo suiço boia no céu também. Mas nesse caso ele não é exatamente suiço. Eu definitivamente preciso fazer mais sentido. Mas só de vez em quando. Fazer sentido é algo aprisionador. Como um cubo perfeito. A égua é marida do cavalo. A zebra o marido eu não sei não. Lá vai a garça branca, meus deus como vai se avoando!, eu queria ser uma balãozinho pra ir te acompanhando! Como um cubo perfeito.

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