sexta-feira, 10 de dezembro de 2004

Francisco

Eu perdi.

Perdi o que escrevera.

Perdi tentando não perder.

Perdi tentando salvar.

Perdi.

Vou escrever.

Tudo de novo.

Tudo de novo.

Eu preciso



Chegamos quase ao mesmo tempo. Nós um pouco à frente. Ele velho quase morto. Olho-o com interesse. O homenzinho vermelho do outro lado.

- Você me empresta essa mochilha pra eu ira pra escola?

Meu irmão olha para ele. Morrendo de medo. Medo, medo, apavorado. Será? Ou eu.

Pessoas do outro lado. Apressado, nada, tarado, idiota, simpático. Uma com o seu guardachuva. O outro olhando para uma senhora bidimensional sem roupas na banca de jornais ao lado.

A voz era velha. Rouca. Rouquidão pelo não-uso. Voz flácida, silenciosa, ruidosa, áspera e fluida. Ele era flácido.

Olhei para ele. Sorri. Sorri para mim mas também sorri para que ele me visse sorrindo. Ele me viu. Ele me viu porque exagerei. Ele me viu, mas exagerei.

A voz. A voz era nua. Completamente exposta,

nua.

Nua, exposta, esperando aplausos ou vaias. Saia porque tinha de sair. Tinha de sair. Tinha de sair. Tinha. Tinha. Nem que hovessem vaias. Que houvessem vaias! A voz, o som, a arte. Nus. Nus. Têm que sair.

Têm.

- Qual é o seu nome?


A senhora bidimensional sem roupas com cara de quem não sabe o que é sexo.

O homenzinho piscava.

Não era vermelho. Nem piscava.

Mas era um pouco vermelho. Mas piscava um pouco.

O velho com roupas velhas, mortas. Seríam mortas se houvessem sido vivas. Mofadas.

Mas isso não quereria dizer vida? Mofo vida vida mofo.

Um colete, uma calça, sapatos. O cabelo precisamente penteado. Não naturalmente penteado. O natural é a espiral, não o círculo. As cores das roupas, flácidas, ambas, as cores e as roupas.

Ele era magro. Não comia? Comia. Era barrigudo. Flácido e magro. Magro e flácido.

Seu crânia aparecia por detrás da pele. A pele tingida pelos ossos. A pele grudada; como um beijo eterno, inseparável, irreparável. Na pele o sangue ainda passava, forte, teimoso, frágil.

- Gabriel.

Meu irmão, cinco anos e dez meses, com vergonha, ou com receio, olhou para o chão. Disse baixinho, para baixo. Eu abri a boca. Ia repetir o nome. Medo de que o velho não tivesse ouvido. Mas ele ouviu.

- Bonito nome. Sabe qual é o meu nome?

Eu ficaria adivinhando por horas. Eu fiquei pensando por horas naqueles poucos segundos. Naqueles poucos segundos. Qual o nome dele? Quem era ele? Um soldado que foi expulso por discordar com o superior? Seria um sujeito que discordava com ou que discordava de? Teria sido preso? Viúvo? Da mulher, das crianças, da vida? Seria um morto? Doente? Feliz? Quem era ele?

Ele estava se perguntando. Ele precisava saber. Quem era ele? Ele precisava. Precisava. Precisava de um verbo ser.

Não nos deu tempo para adivinhar.

- Eu sou o Francisco.

Sim. Ele era. Verbo intransitivo. Ele era! Francisco...

O Homenzinho vermelho sumiu. Outro verde não verde surgiu logo abaixo. Tamém piscava não piscava. Seu velho! Lindo.

Eu te amo.

Queria então beijá-lo. Abraçá-lo. Eu amo. Você é. Você é.

Sorri para ele. Para mim.

Ele viu e eu não exagerei. Ele viu.

Ele sorriu.

Começamos a andar. Nós mais rápido que ele. Ele foi ficando para trás. Ele e suas roupas vivas e sua voz flácida e seu sangue. Quase morto.

- Tchau, Francisco.

Adeus,

Francisco.


Adeus.

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