segunda-feira, 3 de janeiro de 2005

Na minha cidade tem poetas

Em Montevideo hay poetas, poetas, poetas

Que sin bombos ni trompetas, trompetas, trompetas

Van saliendo de recónditos altillos, altillos, Altillos

De paredes de silencios, de redonda con puntillo.




Salen de agujeros mal tapados, tapados, tapados

Y proyectos no alcanzados, cansados, cansados

Que regresan en fantasmas de colores, colores, colores

A pintarte las ojeras y pedirte que no llores.



Megafone:

. E o pato está na ratoeira

. E é dois mil e cinco

. E os poetas sobrevivem

. E a vida sobrevive

. E viver é uma delícia

. E morrer é uma delícia

? E quem quer alguns corpos

. Corpos frescos asiáticos (e africanos)

. E o turista gordo engolindo o maremoto com sua barriga cheia e seu corpo oco, completamente vazio, vazio fedorento!

. Barriga cega!

(fim.)



E pedirte que no llores. A pintarte las ojeras e pedirte que no llores.

Não chore ainda não

Que eu tenho uma razão

Pra você não chorar

Amiga me perdoa

Se insisto à toa

Mas a vida é boa

Para quem cantar



E o Pa

to hoje choran

do riu por es

tar na Ratoei

ra



Chope! Barriga de Chope do turista da barriga arrogante!

Mas o pato rói a roupa da barriga arrogante do turista da Tailândia.



Faltam trezentos e sessenta e um dias para dois mil e seis!

Faltam sete ou oito para o fim do noso planeta!

Faltam sete ou oito dimensões móveis!

Falta uma cordinha para Aquiles ultrapassar a Tartaruga!

Falta uma geração de pensadores.

Falta música aos suicidas.

Falta lucidez.

Faltam valas aos corpos.

Faltam cidades de poetas.

Faltam poetas.

Sobra poesia.

Sobra vida.

Sobram lágrimas.

Faltam lágrimas.



As lágrimas têm um gosto delicioso.

As lágrimas são de sal de pelúcia.

O sangue tem um gosto delicioso.

Os venenos também.

Melancia.

Cupuaçú.



Faltam i dias.



Tienen ilusiones compartidas, partidas, partidas

Pesadillas adheridas, heridas, heridas

Cañerias de palabras confundidas, fundidas, fundidas.

A su triste paso lento por las calles y avenidas.



Ah! A Barriga... Minha barriga chorou e chorou e cuspiu e vomitou e chorou lágrimas cáusticas e irradiou cem mil palavras invisíveis dolorosas, doídas. A barriga.

A Barriga sangrou, implodiu - se ao menos tivesse explodido... - sem mudar o seu volume, mas a massa. A Barriga ficou densa, pesada. A Barriga ficou cinza concreto cinza concreto cheio de sangue velho. E foi morrendo aos poucos e foi morrendo e foi morrendo (mas barrigas não morrem) e foi morrendo e ficando densa e densa e densa e pesada; então a Barriga explodiu, finalmente, e explodiu apenas por não suportar mais nada e tirou o impossível e ficou mais leve, mas ainda pálida e caída, flácida. A Barriga queria cantar, mas não tem como cantar a Barriga. No entanto, a Barriga, em seu leito infinito de morte jurou que cantaria. Que cantaria se fosse necessário. Mas não precisou cantar. A Barriga irradiou uma música silêncio a barriga irradiou uma tristeza infinita e perguntaram ao resto do meu corpo O que houve com a sua barriga? e eu tentava responder, fazer um movimento apenas, um indicar, mas a barriga impedia, a barriga segurava as mãos, os dedos, a barriga não queria que soubessem. A Barriga sabia que sofreria. A Barriga sofria. A Barriga fez sofrer porque suas palavras invisíveis e sua música silêncio irradiaram. E a barriga não estava bem. Perguntavam. A Barriga calada. A Barriga não dormiu e não deixou dormir. Após a noite, a Barriga caiu a barriga não suportou e a Barriga disse palavras audíveis, que só fizeram reiterar as palavras inaudíveis. E a Barriga encheu-se de ar limpo e gelado. E choveu. E a Barriga coloriu-se. E a Barriga coloriu-se. A Barriga suspirou.



No pretenden glorias ni laureles, laureles, laureles

Sólon pasan a papeles, papeles, papeles

Experiencias totalmente personales, sonales, sonales

Elementos muy parciales que juntados no son tales.



Hablan de la aurora hasta, cansarse, cansarse, cansarse

Sin tener miedo a plagiarse, plagiarse, plagiarse

Nada de eso importa ya mientras escriban, escriban, escriban

Su mania su loucura su neurosis obsesiva.




Su mania su loucura su neurosis obsesiva.

Su mania su loucura su neurosis obsesiva.



Será que dá tempo?

Vou ou não vou?

Não.

Vou sim!

PAF

Morreu.

A morte veio e chegou bem de repente pra mostrar pra toda a gente que a morte também vem.



Conheço um cara que comeu manga com leite, foi picado por serpente; conseguiu sobreviver. E aquele outro pisou numa taturana teve morte instantânea não dá nem pra entender. Por quê?




A menina olhou para mim como quem olha para um bicho feroz, assustador e completamente desconhecido. Sorri. Ela saiu correndo.



O Pavão abriu e todos viram suas belas cores, cores, cores, plumagem majestosa.



A Rainha da Inglaterra levantou-se da cadeira de forma a alcançar a comida e se servir durante um jantar. Achando que a Mulher estaria se levantando, o garçom puxou a cadeira, a dama, então, ao tentar sentar-se novamente cai no chão e é amortecida por seus grande cachorros negros peludos, que costumam receber comida em jantares como esse.



Macondo é uma cidade de poeira velha amarelada.



Argh! grita para mim o orelhão no meio da rua.



Os Homenzinhos, cada vez em menor número, são sugados pelo redemoinho de urina e fezes, ainda fitanto seus grandes olhos no velho irreconhecível.



Andan por las calles los poetas, poetas, poetas

Como si fueran cometas, cometas, cometas

En un denso cielo de metal fundido, fundido, fundido

Inpenetrable, desastroso, lamentable y aburrido.




Eu amo.

Eu vos amos.

Patos

Na Ratoeira.



Eu me transformo num hipercubo. Bobagem.



O meu avô apontava para cada árvore e dizia o nome, o nome científico, os pássaros que nela se aninhavam, a altura e a idade. Sem erro.

Faltam poetas. Sobra poesia.

Papai Noel é cabra da peste.

O poeta também.



Os pássaros ficam em silêncio. Não querem competir contra os homens e suas comemorações infundadas de, como se diz?, ano novo. Os pássaros não querem volume, mas altura, melodia, harmonia, cordas e cordinhas.

Mas aí aparece caído no chão um pássarinho. Desses bem amarelinhos que estão em todo lugar. Morto. Erguendo a cabeça vejo o funcionário do zoológico carregando mais incontáveis passarinhos desses bem amarelinhos que estão em todo lugar. Mortos. Abre a grade da águia e joga os pássarinhos amarelinhos lá. Ela come-os sem sentir o gosto. De que adianta ter a alama colada aos ossos dessa carne errada? A águia não morre. Mas não vive. A vida não é nada mais que lutar e voar na maior velocidade possível e, numa prova incontestável de destreza, agarrar um passarinho desses bem amarelinhos ainda no ar. Viver não é nada mais que isso. Mas ela não vive. Nem morre. Matem-me. Matem-na. Ou dexem-nos viver.

Tira os bichos do zoo

Tira os bichos do zoo

Põe o homem na jaula

Põe o homem nu.



Põe o homem nu!

Põe o homem nu!

Põe o homem nu!



En Montevideo hay biromes, biromes, biromes

Desangradas en renglones, renglones, renglones

De palabras retorciéndose, confusas, confusas, confusas

En delgadas servilletas, como alcohólicas reclusas.



Quando eu era menor, queria ser um astronauta.

Posso?

Por favor?

Posso?



Andam por las calles escribiendo y viendo y viendo

Lo que vem lo van diciendo y siendo y siendo

Ellos poetas a la vez que pasean, pasean, pasean

Van contando lo que vem y lo que no, lo fantasean.



Valha-me Nossa Senhora

Mãe de Deus de Nazaré

A vaca mansa dá leite

A braba dá quando quer

A mansa dá sossegada

A braba levanta o pé

Já fui barco, fui navio,

Mas hoje sou escaler

Já fui menino, já fui homem,

Só me falta ser mulher.

Valha-me Nossa Senhora

Mãe de Deus de Nazaré!



Em Montevideo tem poetas.

Na minha cidade tem poetas.

Também

Há poetas.



E vida! Mesmo quando a barriga está densa.

Vida...



Miran para el cielo los poetas, poetas, poetas

Como se fueran saetas, saetas, saetas

Arrojadas al espacio que un rodeo, rodeo, rodeo

Hiciera regresar para clavarlas en Montevideo.

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