domingo, 23 de janeiro de 2005

Saiba: todo mundo teve medo

{ela pediu pra eu falar pra você que você é idiota}



... enquanto me alimento de sal ...



.

O que houve é que o lado molhado parecia mais seguro.

Na verdade estou mentindo.

Eu vi que eu cairia.

A pedra estava molhada; como eu não cairia?

Mas eu fui assim mesmo.



§ olha só: se eu pisar ali, eu vou escorregar ou perder o equilíbrio, de qualquer forma, eu tento segurar aquele galho {idiota!} o galho

de uma planta

presa a uma pedra

não aguentaria o meu peso

e eu sabia disso

mas havia alguma esperança

ou indiferença

indiferença

só escorrego um pouquinho.



Tinha o caminho seco, o caminho molhado e o caminho seguro. Eu não conhecia o caminho seguro e fiquei preocupado com o caminho seco, que implicava pular - e aí lembrando que pular nem sempre é uma idéia.



/não vá se matar.../



Não... não... Prometo que não morro (só me machuco bastante).



Daí eu piso na pedra molhada e escorrego, como já imaginava mas não me importava e estiquei o braço para alcançar o galho

de uma planta

presa a uma pedra

não aguentaria o meu peso

e eu sabia disso

mas havia alguma esperança

ou indiferença

indiferença

só escorrego um pouquinho



E o galho não aguentou o meu peso



° Nessa hora eu lembro de ter pedido a Deus pra que não acontecesse nada com ele,

porque eu sei que ele era importante pra minha prima e ela ficaria muito chateada se eu morresse °



Então eu grito(faloalto): e s t o u c a i n d o. Como se isso não fosse perceptível. Mas isso era frieza desesperada.





Escorregando, eu estico o braço e tento segurar nas pedras molhadas com minhas unhas recém cortadas ou roídas. Não consigo.



putaqueopariu



Mais frieza nojenta desesperada. Se eu tivesse gritado, provavelmente morreria, mas morreria sentindo menos medo.



Eu então pensei putaqueopariu masseráqueeuvoufazerissocomoferiadodeles ? se eu morresse eles teriam que ficar tristinhos tristonhos chorando a tragédia do amiguinho morto por idiotice numa cachoeirinha de fio de água. E metade da metade de uma coluna de meia página no Jornal do dia seguinte anunciaria a idiotice deste ex-ser. Porque com a morte a gente deixa de ser. Talvez por isso eu não estivesse pensando muito em mim. Meio que uma indiferença. Indiferença e medo e putaqueopariuputaqueopariu que medo! Com mais um metro por segundo eu morreria. Mas a partir daí eu já não seria, então, eu não me importava muito comigo mesmo.

Quer dizer, algumas semanas atrás, eu avia percebido que ser é muito bom e que eu seria por quanto tempo eu conseguisse e eu percebi que ser parece melhor que não-ser.

Uma prima minha (se) suicidou quando eu tinha uns sete ou oito anos. E isso me levou a vários pensamentos como o que será que eu faço depois de morto? E eu pensava que pensaria depois de morto. Enfim, nas aulas de matemática meus pensamentos foram guardados no meu arquivo e reabertos há pouco tempo. E, convenham,os, que bobagem, ao morrer, não sendo mais, não se pensa mais, não se sente mais. Não se é.

Mas eu gosto muito de ser.

Vocês não?

Eu sim.

Talvez por isso tenha tido medo.

E putaqueopariu! que medo!

Mas também indiferença, porque, afinal, se eu morresse, não seria mais e apensar de ainda querer ser, eu não sentiria saudades mesmo, afinal eu não seria.

Pois então eu estava caindo e decidi que seria muito chato o veleiro carregar um caixão e vocês TEREM de ficar tristes. E eu viraria uma lenda local e aquele lugar seria temido e amaldiçoado, e em pouco tempo eu só seria lembrado vagamente, e como lenda. Então deicidi que não estragaria o feriado de vocês que que tentaria continuar sendo.



° Nessa hora eu lembro de ter pedido a Deus pra que não acontecesse nada com ele,porque eu sei que ele era importante pra minha prima e ela ficaria muito chateada se eu morresse °



É. Talvez ficasse mesmo. De qualquer forma, é a que mais teria que ficar triste. Ela e você que com uma voz de quase desespero revestido de lucidez me mandou ficar imóvel quando eu finalmente parei e parei e parei encaixado numa caminha.



O que dá aflição não é ficar no ar é ficar encostado no chão (ou na pedra) mas sem ter a segurança do chão.



Acorda amor

Eu tive um pesadelo agora

Sonhei que tinha gente lá fora

Batendo no portão

Que aflição



Sabe... é como uma experiência negativa. Você percebe que tudo que te deixava seguro não deixa mais. Cair na cachoeira é como perceber bruscamente a insegurança da sua weltanschauunge buscar desesperadamente outra para se segurar.



Mas aí eu terminei de cair. Fiquei entalado num vão entrepedras como uma caminha como um leito. Caí e apaguei. Parei de pensar por meio segundo, o que foi um choque tremendo.



Que aflição!



{[(°/Ei! Tá tudo bem? /°)]}

Tá - com voz de quem não está lá muito bem.

Mas estava muito melhor do que poderia estar.

Não quebrei nada!

Só você, com aquela voz de quase desespero revestido de lucidez me mandou ficar imóvel. E perguntou se estava sangrando.

Eu estava sangrando.

° Mas aí eu já achei que estava jorrando sangue°



Sabe, de certa forma isso estava acontecendo. o sangue estava voltando, no durante eu perdi o meu sangue. Não senti o meu sangue. No depois o sangue jorrou para dentro e eu voltei a ter sangue.



Eu mexi os meus dedinhos das mãos e dos pés e eles se mexeram direitinho como eu mandei. Bons dedinhos. Muito bons dedinhos.

Fiz o primeiro movimento com as costas para avaliar a possibilidade de me levantar sozinho. Mas como eu já estava morrendo de medo, já havia pedido para irem lá me ajudar. Estava doendo. Mas nada havia sido quebrado. Peguei meus óculos que pararam ao lado da minha cara e, virando o rosto uma planta fez cócegas na minha cara e entro no meu olho. Essa planta me fez recobrar a consciência que cambaleava.



Aí então você chegou com uma cara de preocupação que me deixou me sentindo culpado e não-merecedor disso. Você me deu a sua mão e me ajudou a levantar. Então lavou os machucados e me deu um abraço.

E esse abraço foi a coisa mais importante que você fez para mim. Porque eu estava com medo. Com muito medo. Mas o abraço foi como a reestabelecimento da segurança a nova Weltanschauung. Um abraço. Barrigas. O sangue voltou à barriga, esta barriga sofrida. Poruqe você tem a melhor barriga do mundo, sabia?

Então você me ajudou a subir pelas pedras pelas quais eu tinha caído e eu fiquei morrendo de medo de cair de novo e eu fiquei morrendo de medo de ver você cair.

Eu não queria morrer. Queria continuar com você. Queria continuar com todos vocês. Mas se eu morresse também, não quereria mais nada.



E vem de lá

O meu sentimento de ser




E também teve aquele outro que seria o que menos se importaria com uma morte minha (mas que não é menos ou mais nada por isso). E aqulea que se importaria mais com a Morte que comigo morto. E por ela, também, eu tentei não morrer. Não queria que visse a Morte e se assustasse com ela de uma forma tão... abrupta.



Estou vivo;



Mas estou chorando.

Chorando muito.

De medo.



E, sim, eu sou idiota.



E estou com medo.

Um medo terrível e doloroso.

E medo medo medo.

Putaqueopariu.

Um abraço!

Putaqueopariu.

choro

choro


Um abraço, por favor.

E um copodágua.

Aflito.



medo

4 comentários:

  1. O medo... o que falar do medo?

    Do medo de morrer, esquece... "A única coisa certa na vida é que, um dia, você VAI morrer".

    Do medo da perda de "você": blearg! LARGA DE SER TROUXA (ou bobo, como diz)!!! Ela te ama, não precisa de provas disso. Olhe em seus olhos, ouça sua voz... Ela-te-AMA!... Te escolheu para irradiar sua luz e fazer feliz... Larga de ser bobo...

    Agora, pensa em outras coisas, olha para dentro, tenha seu momento egocêntrico. Esqueça as outras pessoas, esqueça "você" (ainda num entendi o pq de chamá-la de você...). O que o Yuri, o único e maravilhoso Yuri queria naquele momento, o que este mesmo sentia naquele momento? O que valia a pena naquele momento?

    Não, não tenha medo... Já basta o meu medo (não, não ESTE meu...). Te adoro... Você sabe disso...

    Luique, indo comer brigaeiro na cozinha...

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  2. Luque,

    1)O que falar do medo? Muito mais do que eu falei ali em cima.
    2-É. Mas isso é uma grande bobagem. Ou não.
    3~Claro que eu sei. Sim, eu sei. Mas, veja bem, eu TENHO que fazer muitas coisas que eu faria de qualquer forma.
    4°O que EU, YURI, pensei, escrevi ali.
    5*Por que não ter medo? e, sim, eu sei.
    6=Bom apetite!^^

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  3. Yuri... Yuri. É mesmo. Meu coração parou, mas na hora eu não percebi porque o pensamento horrível de que você podia morrer,ou quebrar um braço e eu me sentir culpada pra sempre, ou ficar paraplégico, me deu um medo tão grande que eu não tive a opção de me desesperar.

    Eu comecei a ler e a chorar ao mesmo tempo.

    Aquele abraço não fo apenas um, porque naquela hora eu queria não te largar mais, cuidar de você e acreditar de novo que o galho não vai quebrar, que a pedra não vai rolar, que o atrito dos meus pés serão suficientes. Obrigada por dizer que sabia. Obrigada. Porque se você não soubesse eu não poderia confiar em você ou em mim ou em qualquer pedra.

    É difícil não correr o risco. O risco te chama, a perspectiva de cair pode parecer emocionante... Mas no fundo o medo é horrível, e eu (como todos os outros) fiquei te xingando pelo resto do dia de raiva e nervosismo para afastar aquele medo e aquela sensação de vazio e agonia...

    Preciso ir lavar o rosto.

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  4. achei simplesmente muito lindo o modo como você descreveu tudo isso.
    sabendo que deve ter sido extremamente difícil...
    lindo demais, Yuri.

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