sábado, 1 de outubro de 2005

Vermelho

Noel Rosa já
pergunta o povo
com maldade
- Onde está a honestidade
?
Onde está a honestidade

Faminto o povo
Que nem povo
Como pouco
Ou Não come
Não é gente
Como a gente que come
E nós que comemos feito porcos
(que quase somos)
e vacas.
(Que definitivamente somos.)
Como aquelas de São Paulo
de silicone, ossos e carne
e sangue – embora pouco
escasso
Que rareia à medida que rarei a inteligência da espécie paulistana
de vacas e porcos
E, quem sabe,
Macacos
No Leblon
(ou em frente à Farmacia PUERTO MADERO
Que realiza obras sociales
E aceita tarjetas debito – credito
Nos telefones 43450001 e 43450002)
e no Brooklin
Macacos porcos e vacas
que receberiam cusparadas
De sem-terras, do Movimento dos Sem-Terra
Se não fossem
Pequenos medrosos
que se fecham em tocas, casas blindadas
E carros também blindados
Com touros e armas e olhos
todos comprados com dinheiro
limpo
com cheiro de cândida e esfregados para sair o cheiro
de sexo dos moleques de rua
que, sem dinheiro, comem-se uns aos outros
porque as meninas da mesma rua
não podem perder tempo com quem não tem como pagar.
Até que chega o momento em que,
por falta de feijão
ou angústia existencial
ou loucura
ou desistência
comem-se uns aos outros arrancando pedaços
e chupando o sangue que ainda resta
(e que tem gosto estranho.)
Um dia os moleques enjoarão e comerão
As vacas, porcos e macacos;
Agora sim, com gosto.
Surpresa: gosto dos próprios moleques.

Mas só se os moleques tiverem dentes.
Porque quem não tem dente, não mastiga
Mesmo que faça força; se força,
Machuca a gengiva
Que já não é lá muito forte
Ou vermelha
Ou quente
A gente pensa com a gengiva. A gente pensa por causa da gengiva.
E a barriga
E o clitóris
E os olhos
E a unha.
Se a unha dói, a gente não pensa
A gente precisa do outro pra pensar pra gente
Mas só quando a unha do outro não dói.
(Se dói, não se pensa)
No entanto, não serve sem doer a unha do outro
Que pensa por você
Fazendo favor,
Ou cobrando os olhos da cara
ou se é Satanás, a alma
temperada com sangue e suor.
De qualquer forma, é um outro que pensa.
Mas só quando a unha não dói.
E dessa forma, pensa um pensamento sem dor de unha dolorida.
Porque não sabe o que é a dor na unha que não é dele.
Pode ter quantas dores tenha.
Mas não tem a dor na unha
Que você tem
Pela qual só; você chora
verdadeiramente.

Há unhas que doem
Freqüentemente
Quando não
Constantemente.

Fede.
De que adianta
Desodorante
Perfume
Incenso
Ou qualquer outra resina aromática
Extraída de uma qualquer árvore terebintácea
Ou saquinhos de cheiros sortidos
Se fede?
E continua fedendo
Acabou de tomar banho.
A alma fede.
A alma fedida.
Se se constata o fedor é excessivo,
O próprio inferno.
Cheiro de merda
Enxofre
Amoníaco
E aquelas ruas onde os bêbados vomitam
enquanto choram dores de amor
E se imaginam ditadores supremos de um Estado Uno
(bem menos preocupante,
por sinal,
que bêbados ditem,
se se pensar em ditaduras
da América Latíndia
num Romance Pré-histórico)

Se não há igualdade suprema
Que tenha dado certo
É pelo medo
E preguiça.
Ser responsável
Dá trabalho
Demais para porcos e vacas
Macacos menos – não param quietos
Só têm o medo
E fingem que não vêem.
Muito mais fácil
Buscar um herói
Ou alguns.
Finge-se que tudo está certo.
(Os macaquinhos fazem vista grossa:
proletários ou escravos são armazenados na periferia de qualquer grande cidade
Cidade ou Império
Império ou Ideologia)

Um grande armazém de almas.
Almas que trabalham duro
Apesar do suor e da fuligem
Não têm cheiro de nada.
Porque não são absolutamente nada.
Apenas uns poucos pobres pretos perdidos
Pretos de melanina
Ou preto da sujeira das máquinas.
Máquinas que valem o equivalente a mil pretos
Sendo que os pobres valem cinco terços de macaquinhos.
As almas pretas
Que cantam dançam
Fazem festa
Arte
Porque não têm a menor preocupação com os macaquinhos
Porque estão com fome, tesão e dor
Trabalham, comem o que não tem pra comer
Transam e dançam para esquecer a dor.

Não que os macacos não transem ou dancem
Mas perdem muito tempo duplipensando.

Duplipensar é um ato de covardia
E alienação.
Chega-se até a triplipensar,
Quadriplipensar.

Pensar como se queira
- já que não se quer muito, mesmo.

Enquanto uma cidade de São Paulo
Adormece e amanhece
E convalesce e desengana
Vermelha
Oxidada
Com alguns milhões de formiguinhas
Correndo de um lado para o outro
Com pastas
Mochilas
E bolsas cor-de-rosa
Por entre as árvores de metal
Tão rápido
Tudo veloz
Que a vida não se percebe
A vida não percebe
Assim é mais confortável
Não é mesmo

Um momento o direito inalienável de viver
Mesmo sujo
Indigno

Vai-se.

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