quarta-feira, 21 de dezembro de 2005

O Bom Parto (Tatuapé)

Praça cheias de pombos
Cheirando a mijo e sujeira
Dos homens que dormem no Coreto
Homens aos quais não dirigimos nossos olhares
Voltamo-nos para os brinquedos e a areia
Com Crianças que correm, gritam e, por vezes, choram
Afinal, não carecem de cera os ouvidos jovens
Para desespero e aflção das avós já não jovens
(Os avôs logo ao lado
em mesas e bancos de pedra
jogam dominó e gritam meninos
a vitória e a induvidável má-fé alheia)

A Banca de jornal, freqüentada por todos:
crianças lançam olhos famintos
nos carrinhos importados
Garotos compram o Lance! e apontam seus narizes para a Época
(procurando dessa forma, de relance,
ver seios e coxas inviáveis na capa da Playboy)
As meninas sorridentes - e estridentes -
pegam a Capricho, a Witch ou uma tal de Todateen.
Uns quase maiores
Veêm os livros da L&PM Pocket
E discorrem aos amigos sobre Ecce Homo,
sem nunca terem realmente lido Nietzsche.

Do outro lado, a Escola Pública,
Antes visível através de postes coloridos de concreto
Hoje escondido atrás dos muros e portões amarelos enferrujados
Hoje, Escola Fantasma
Nunca se viu alguém sair ou entrar
Ninguém, intimamente,
acredita que ela exista por trás dos muros e portões amarelos pesados

Finalmente, a Igreja
exige o sinal da cruz a quem passa
e velas pequenas a quem entra
uma grande pomba à frente de quem entra
amarelos irradiados
e nuvens delicadas num céu azul
Nos pilares (intercalados pelos vitrais),
a história de Jesus
Nos compridos bancos de madeiras,

Com medo
Antes do café com pãozinho doce feito em casa.

Um comentário:

  1. Fé para espantar o medo...depois de um pãozinho doce feito em casa...mas ainda busco saciedade!!!
    Pra sempre nada basta! Até o fim!!

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