domingo, 15 de janeiro de 2006

Lembranças na noite

Numa noite, foragidos. O Mar, o Céu, a Lua e toda a Vida, a Entrega, e a Fé.
Numa noite, reclusos. Lembranças de um tempo arcaico que ainda permeia o corpo, humano.
Noites; mergulho eterno: água e sal circundam, apenas uma continuação daquele tempo arcaico que se prolonga, finito e transcendente, no espaço tempo inalcansável, mas recipiente.
Lua clara quase cheia, fornece sombras e flagra a noite e sua forma.

Bela, linda, criatura bonita
Nem menina nem mulher
Tem espelho no seu rosto de neve
Nem menina nem mulher
Apenas apanhei na beira mar
Um taxi pra estação lunar

E lembro.
Lembranças que se fazem apenas lembrar. Saudade, Vergonha, Medo, Sabor uma capa me cobre por completo esvoaçante e num instante (vários) dissipa-se e permite que a Lua ilumine meu corpo de carga e vôo. Meu corpo de carga e vôo, limitado pela pele falha e viva (minha pele envelhece e cresce e os pêlos arrepiam e roçam a luz distante), meu corpo de carga e vôo, o mesmo das lembranças insípidas (pois insípido me sou) queridas - vida! - que constituem meu corpo. Corpo de carga e vôo.

Lua indiscreta esconde a lágrima que não sai. Deixa ver os olhos... (Tu! acaso reparaste em meus olhos? Vê em meus olhos minha nudez e enxerga minha Natureza. Escuta o silêncio de minhas palavras inquietas e a inquietude de meus silêncios. Percebe e desfruta da serenidade fundamental da minha existência. Cria-me e ajuda-me e demole meus caprichos cracas e crostas e descobre-me. Tira-me da caverna, dá a mão que eu te caminho; e encorajo-me para te fortificar, e te fortifico para que não me deixes desistir. Nenhum de nós sabe o caminho, e é inevitavelmente receosos que abandonamos a desumana imobilidade.)

Minhas histórias talvez não interessem a ninguém. Apenas histórias! Não me interessa contá-las. Hoje não conto causos.
A lembrança sou eu.

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