quinta-feira, 4 de maio de 2006

- Não, melhor não - disse Ludmilla. - Eu posso falar de Manuel sem bancar a mãe-coruja. O teatro e a maternidade não se associam muito bem, e além disso já é tarde.

- Não é tarde, Lud. Até agora não quisemos, de acordo, mas não sei, você temuma maneira de falar de Manuel e depois, que diabo, as soluções sempre se encontram, eu não vou ser o pai ideal, isso é verdade.- Já é tarde - repetiu Ludmilla bebendo o chá sem olhar-me. - Agora não, Andrés.

Tomei-lhe a xícara, deitei procurando o calor, os pés de Ludmilla passearam pelos meus, cachorrinhos mornos. Francine, evidentemente. Era fatal. Mas não apenas isso, Ludmilla tinha fechado os olhos e deixava que as mãos de Andrés a acariciassem vagarosamente, desenhando-a na escuridão, em algum momento Andrés acenderia novamente o abajur, nunca fizeram amor às escuras, tinham que se ver, tinham que estar ali, negar qualquer um dos sentidos teria sido como cuspir na cara da vida, e não se tratava somente de Francine, se bem que também, pois se se deixavam levar e faziam um filho dava no mesmo que o pai fosse Andrés ou qualquer outro, ainda que não existisse qualquer outro, dava no mesmo porque Andrés iria e voltaria, Francine ou alguma outra dava no mesmo, no fundo não seria ele o pai dessa criança, acabava de dizer que não seria o pai ideal, nesse terreno era incapaz de mentir, estava lhe oferecendo algo que não assumiria jamais completamente. Que importava agora, melhor dormir, mas eu não queria que ela dormisse assim cansada e triste, três atos cada noite e matinê aos domingos, apesar disso não podia deixá-la ir assim ao léu, é claro que era Francine, o íncubo ruivo em plena noite.

- Sim, também por isso, por sua maneira de ser e querer explorar-me - disse Ludmilla. - Tampouco Francine quererá um filho seu chegado o momento, é muito
inteligente, quase tanto quanto eu. Durmamos, Andrés, estou morta. Não, por favor, me sinto como esses maços de cigarros de Gómez. Ah, prometi a Susana que iria ajudá-los a preparar outra remessa.

- Está bem, teremos que juntar as guimbas - disse-lhe -, parece que agora vai
se tornar a nossa atividade mais apaixonante.

- Não seja idiota, não leve a coisa assim.

- É a conclusão inevitável, ter querido tanto na vida, procurar todo o seu sentido, e descobrir que vamos direto para um monte de fósforos queimados, algo assim. Frases, já sei, mas também a verdade, Ludlud, porque teria sido tão simples e tão recomendado não dizer nada a você, não falar nunca de Francine ou de qualquer outra mulher.

- Mas sim, bobo, para que voltar a isso. Não é que eu junte as mãos de admiração diante de seu desejo de franqueza, que no fundo é uma maldade que busca corroer as coisas a todo custo, mas esse problema já foi falado até não poder mais, Andrés, o que acontece é que eu devia ter um filho com você antes, quando éramos somente nós dois e exatamente por isso não queríamos ser três, não queríamos berros e fraldas sujas em casa, você precisava de ordem, de calma e de baudeleire e eu ensaiando no espelho, todos os perfumes da Arábia não poderiam apagar, etc. Narcisos aliados, perfeitos egoístas assinando um pacto para sentir-nos menos egoístas por adição. E em vez do temido terceiro mijão e mamador, voilá que chega Francine fresquinha da universidade e da haute couture, com seu carrinho vermelho e sua livraria e sua liberdade. Posso compreendê-lo, mas nem ela nem eu aceitaremos nunca seus cilas e caríbdis, mas não quero um filho, já não. O dia em que o metabolismo me peça forte demais, como parece que aconteceu esta noite, irei para a cama com o primeiro que me der na telha, ou irei ver Xavier para que me insemine como se eu fosse uma vaca. Good night, sweet prince.

- E eu, Lud? Por que continua me tolerando se não pode aceitar minha maneira de viver? Minhas maneira de querer viver, melhor dizendo, que se esmaga em cada virada.

- Porque o amo muito - disse Ludmilla, e por uma dessas astúcias do idioma o muito tirava quase toda a força do amo e era verdade, amava-o muito porque era bom e alegre como um gato e cheio de projetos irrealizáveis e discos de música aleatória e entusiasmos metafísicos e pequenas atenções, ele lhe vestia as jornadas, pendurava cortinas coloridas nas janelas do tempo, brincava com ela e se deixava brincar, saía com Francine e voltava com as obras completas de Roberto Arlt, e além disso o tempo fazia das suas, o costume se instalava, o apartamento tão bonito, já não havia nada para aprender nem para ensinar, bastava a saúde e rir muito, andar por Paris de braço dado, ver os amigos, Marcos, o cordovês distante e lacônico que agora começava a vir com freqüência, a falar, a trazer Lonstein, a contar-lhes da agit-prop, das confusões, das caixas de fósforos, quase como se fosse somente para ela se bem que Andrés se acreditasse diretamente envolvido, e porque quase, polaquinha hipócrita, acabava de senti-lo ainda o sentia como na pele, a voz entediada e cordovesa de Marcos falando sobretudo para ela, para que começasse a saber o que acontecia que não era muito mais de uma ou de outra maneira a Roda, polaquinha.

Sentia-a distanciar-se, virar de costas, good night sweet prince, good night, little thing, acariciei-lhe as costas, a bundinha, abandonei-a ao sono ou à insônia, como sempre depois de tantas palavras a desejava, mas sabia que essa noite só encontraria um mecanismo resignado, tudo menos isso, go to sleep sweet prince, realmente estão malucos com seus fósforos, e pensar que em Briafa, mas não, tchê, vai ficar sem dormir e Lonstein com seus deuses do caminho, algo não funciona, irmão, podia ter ficado em casa e escutar Prozession, por que ir na onda de Marcos, estão loucos, não me coloque o cabelo nos olhos, Ludlud, oh desculpe, estava dormindo e sonhei algo, não seja boba, eu gosto do seu cabelo, durma, esqueça, sim, Andrés, sim.

CORTÁZAR, Julio. O Livro de Manuel; tradução de Olga Savary. - Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984. pp. 99-102.

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