segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

A curva no tempo que tanto se anuncia

Cadê a curva no tempo que tanto se anuncia?
Pra quem que se mostra tão regular?

A regularidade do relógio e do calendário não me bastam.
O tempo:
o ritmo de andares paulistanos
a arritmia de um coração
o inesperado efeito da bola de futebol.

Na verdade, veja, é a incapacidade incorrigível do registro contábil ser condizente com o conteúdo do mundo. O tempo do relógio, ininterrupto, não tem vínculo nenhum com os acontecimentos (ritmados) que constituem a percepção do tempo. O tempo do relógio é o tempo dos ponteiros, das folhinhas.

Quer ver?
Diz por que o primeiro dia do ano não traz nenhuma das novidades que poderíamos esperar?
Por que ao dobrar uma esquina, em um dia qualquer, o tempo dobra comigo e sobre si, moldando(-se) mudanças?
E por que eu devo esperar o ano que vem? Por que férias, feriados, terças-feiras sonolentas e noites de domingo me pegam desprevenido?

Por que os ritmos desses reloginhos de merda, tão precisos, são incapazes de me dizer quando tenho fome, quando o sol nasce, quando devo morrer?;
ou melhor: por que não posso sentir fome às 11h47?, por que o sol tem que ser enquadrado a cada dia em horários diferentes?, por que diabos eu não posso morrer quando me der na veneta?

Tem coisas que esses reloginhos não sabem.
O calendário nada sabe das coisas do mundo.

Eles não sabem que em determinado momento a progressão dos acontecimentos se interrompe. Eles não sabem que entre uma e outra batida existem muitos tempos.
Não sabem que a tarde às vezes nem existe, não sabem que há muitos dias em um dia, não sabem que pedras e martelos podem acabar com qualquer batida dessas pragas rítmicas.

Os relógios não sabem que ignoro as batidas, que enquanto eles exigem que eu esteja definhando meu dia, estou celebrando o fogo do sol.
Eles não sabem - e não saberão nunca - que a contagem regressiva para um ano novo não depende deles. Não sabem que em 11 de agosto, começou um ano novo; não sabem que enquanto dura a chuva, o ano não passa. Não sabem que para uma velha condenada à solidão, não há passagem de anos, porque o tempo dá voltas.

Não sabem.

5 comentários:

  1. Eu não tenho um marcador pra isso.
    Alguém me ajuda?

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  2. desabafo
    devaneio
    de
    de
    de...
    (olha! o enter funciona aqui!)
    despertador

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  3. Este comentário foi removido pelo autor.

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  4. ok me corrigindo...

    ah, profundo. completamente de acordo, odeio relógios.
    eles não sabem como as aulas de política IV parecem ter muito mais horas do q na verdade tem, não sabem como dá desespero ver os minutos passarem qnd se tá do lado d uma boa companhia e como temos o desejo d esticar esses minutos, e também não sabem q qnd a companhia se vai deixa um furo no coração que o tempo linear não cura.

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