segunda-feira, 13 de abril de 2009

Uma Tragicomédia Política (Cena)

Meus amigos... encontrei sem querer este texto, de setembro de 2005, que escrevi para o colégio, e coloco-o aqui. Talvez tenha sido minha primeira e única cena escrita.

Uma Tragicomédia Política


Personagens: PRESIDENTE DA SESSÃO, CIDADÃO NORDESTINO, O AUTOR – UM BRASILEIRO, DEPOENTE, DEPUTADO DA SITUAÇÃO, DEPUTADO DA OPOSIÇÃO, CIDADÃO SULISTA, JUSTIÇA, IMPUNIDADE, POVO, UM CIDADÃO.


Cena. (No centro de uma mesa, o PRESIDENTE DA SESSÃO, no canto, a JUSTIÇA, de olhos vendados. À frente da mesa, os DEPUTADOS, sentados.)


PRESIDENTE DA SESSÃO (Monótono.) – Será instaurada agora a quadragésima quinta sessão da comissão parlamentar de inquérito aberta em decorrência das denúncias de desvio de dinheiro público envolvendo parlamentares e figuras inerentes à política nacional apoiada na lei trinta e um mil quatrocentos e noventa e sete de agosto de mil novecentos e oitenta e nove retificada pelo Senado da República Federativa do Piripipi.


CIDADÃO NORDESTINO (Entrando.) -


Toda essa ladainha sem sentido

Ocorre somente para entreter.

Uma tentativa de falar bonito

Que mais parece um nhe-nhe-nhê.


Essa gente engravatada

Quer é mais fugir da forca

Esquecer que são danados

E culpar outras pessoas


O falatório vai começando

Já começa a tal sessão

Cujo final imaginamos


Se esclarecem a corrupção

Ou escondem sob o pano?
Só a segunda é opção!


(Sai.)


O AUTOR - UM BRASILEIRO (Entrando.) – Antes de mais nada, eu, o autor, devo um esclarecimento. Se chamo este país impune e deslavado de Piripipi é apenas para proteger de injustiça muitos milhões de compatriotas (e meia dúzia de políticos) que não merecem a generalização. (Sai.)


PRESIDENTE DA SESSÃO – Queira sentar-se à minha direita o depoente. (O DEPOENTE senta-se à direita do PRESIDENTE DA SESSÃO. Cumprimentam-se efusivamente.) Muito bom dia, senhor Depoente. Gostaria de lembrá-lo de que há sérias acusações contra Vossa Senhoria.


DEPOENTE – Sei disso, sr. Presidente.


DEPUTADO DA SITUAÇÃO e DEPUTADO DA OPOSIÇÃO – Sr. Depoente, Vossa Senhoria está em compromisso com a verdade?

DEPOENTE – De forma alguma, srs. Deputados. (Tira um papel do bolso) Eis um documento que assegura o meu direito de faltar com a verdade.


PRESIDENTE DA SESSÃO – Perfeito! Neste caso, (olha para a JUSTIÇA ) queira se retirar e chame sua irmã. (Entra a IMPUNIDADE, cobre os olhos com as mãos, mas espia entre os dedos.)


CIDADÃO SULISTA (Entrando.)

Acaso percebeste

A gravidade do ocorrido?!
A Impunidade – aquela peste

No lugar de um ser querido.


Volte Justiça! Ela urga
Volte Justiça! – eu clamo
Seria além de cega, surda?
Livre-nos de outro dano.


Se porventura choro

Não o faço por fraqueza

Mas por pensar numa outrora


Em que estes, ao redor da mesa
Fariam como o povo de lá fora:
Amar e cultivar a beleza.

(Sai.)


DEPUTADOS – Sr. Depoente, Vossa Senhoria conhece alguém?

DEPOENTE – Não. Não conheço.


DEPUTADOS – Vossa Senhoria pode explicar a origem do dinheiro depositado na sua conta no último dia 1º de abril?

DEPOENTE (Radiante.) – Ganhei na loteria, srs. Deputados!


DEPUTADOS – Mas que coisa boa! Apenas não me recordo de ver seu nome nos noticiários.


DEPOENTE – Ah! Ocorre que o jogo foi feito pelo amigo do tio de um cunhado meu.


DEPUTADOS – Sublime!


IMPUNIDADE – Muita sorte, realmente. Meus parabéns, sr. Depoente.


DEPOENTE – Obrigado, srta. Como vai a família?


IMPUNIDADE – Muitíssimo bem. De um modo geral, sim.


DEPOENTE (A meia voz.) – E a sua irmã?


IMPUNIDADE – Não me lembre! Uma tristeza só. O senhor sabe como é sua cabeça, coitada. Nunca mostrou o menor senso de realidade. (Abaixando a voz.) Na verdade, só a mantemos aqui para que ela não sofra demais.


DEPOENTE (Solícito.) – A senhorita sabe que pode contar comigo.


PRESIDENTE DA SESSÃO – Há tempos não há uma sessão tão produtiva! Senhores, creio que merecemos um tempo extra em nosso almoço. Alguém discorda?


TODOS – Não!


PRESIDENTE DA SESSÃO – Ótimo. O Deputado da Situação tem mais alguma consideração?


DEPUTADO DA OPOSIÇÃO – Não, senhor.


(Todos riem longamente.)


PRESIDENTE DA SESSÃO (Carinhosamente.) – Deputado! De acordo com o nosso calendário, hoje você é da Oposição.


DEPUTADO DA OPOSIÇÃO (Rindo.) – Mas que cabeça a minha!


DEPUTADO DA SITUAÇÃO – Podemos ir, sr. Presidente. Eu não tenho consideração alguma.


IMPUNIDADE – Claro que não. O Depoente me pagaria um drinque?


DEPOENTE (Sedutor.) – Se a senhorita permitir...


(Saem. O POVO surge, cada vez em maior número.)


O POVO (Com gravidade.)

A fome

O vazio

A sede

O sofrimento

A corrupção e a impunidade

O choro de quem nasce

A dor de quem morre

A dor de quem não dorme.

Ou come

Ou sorri.

Vivemos?

Choramos.

(Longo silêncio.)


UM CIDADÃO (Berra no meio da multidão) –

Vivemos. VIVEMOS!

Em frente!


(Dispersam-se todos.)


FIM

2 comentários:

  1. eu tinha comentado nesse post... cadê? sumiu?

    (estou comentando nos posts sem coment pra que eles diminuam)

    ResponderExcluir
  2. uau! descobri outra veia!
    que fase interessante a da experimentação!
    vale a pena! sempre!

    ResponderExcluir