quarta-feira, 10 de junho de 2009

Conflito no campus: bombas e tiros na faculdade

Mesmo com a aflição que sinto agora, espero contribuir com este relato para um retrato mais fiel do que ocorreu hoje na USP. Procuro aqui ser o mais sereno possível.

O que escrevo aqui, e que isto fique claro, é um relato do que vivi e do que apreendi. Vou ao máximo evitar inferências ou reproduzir boatos sobre o ocorrido.

Cheguei no P1 entre 15h e 15h30. A manifestação se colocou no cruzamento da R. Alvarenga com a Av. que dá acesso à USP, a partir da Praça Vicente. Em determinado momento, do carro de som veio a proposta de votação. Ou voltar à Reitoria e realizar uma Assembléia lá ou, antes disso, caminhar pela alvarenga até a Vital Brasil e voltar. A votação aconteceu várias vezes sem contraste. Sob a alegação de que os estudantes de outras universidades precisavam voltar para seus ônibus, o carro de som começou a andar para dentro da Cidade Universitária, o que dividiu os manifestantes. Alguns continuaram do lado de fora, enquanto outros acompanharam o carro de som para dentro.

Quando eu estava nas rotatórias do bolsão da reitoria, vi três camburões da polícia fritando pneu e correndono sentido do P1. Pensamos no momento que estavam indo bater em estudantes. Começamos a voltar, com bastante urgência. Fui correndo e gritando para todos voltarem, até que cheguei na frente da Faculdade de Educação.

Nesse momento, um batalhão da tropa de choque composto por umas duas dezenas de soldados caminhava com escudos na mão para dentro da universidade. Eu mantinha uma distância segura, mas era um dos mais próximos, há 40 ou 50 metros. Com meu celular comecei a filmar o que acontecia. Algumas pessoas pegavam pedras para jogar nos policiais, enquanto eu me esguelava para que não fizessem isso. Nos dois minutos seguintes (e não digo que foi consequência das pedradas porque não vi essa relação com clareza), cinco bombas de efeito moral foram jogadas nos manifestantes que em sua absoluta maioria, já caminhava pacificamente para dentro. Todos ou quase todos tinham flores nas mãos, nas mochilas ou nas roupas, flores distribuídas durante a concentração do ato, a partir do meio-dia, na frente da Reitoria. As bombas e tiros de borracha fizeram com que todos corrêssemos desesperadamente. Um bomba, que estourou ao meu lado, causou a perda da gravação que eu fazia, já que o celular travou.

Nos reunimos na frente da reitoria, mas ainda assim mais bombas chegavam e precisamos correr. Em dúvida se iríamos para a praça do Relógio, a ECA ou o prédio da História/Geografia, fomos para este último. A polícia avançou, nos seguindo, e se colocaram na Luciano Gualberto, na esquina com a Rua que desce para a Reitoria. Nos colocamos em cima do morro, na beira do estacionamento do prédio. Nesse momento notei a presença de professores entre os alunos, a quem pedi ajuda e pedi para ligarem para outros professores.

Bombas lançadas no estacionamento do prédio e depois uma bomba de gás lançada no vão livre da história, nos afugentou para o outro lado do prédio. Neste que era o momento mais tenso, recebíamos notícias do aumento do número de policiais, fora os 3 helicópteros que nos sobrevoavam.

Por motivos que desconheço (ouvi falar de negociações da Diretora da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas com a polícia, impedindo-os de entrar no prédio), a polícia se manteve parada, ainda lançando algumas bombas e, depois, recuaram até a reitoria. Sentíamos sitiados e em um estado de guerra. Pessoalmente, sentia indignação e temia seriamente minha integridade física ou política. Muitas pessoas passaram mal por causa do gás, além de ferimentos pelas armas usadas pelos policiais e da prisão, relatada, de alguns manifestantes, entre eles, Brandão, líder sindical e ex-funcionário da USP, recém demitido.

Assembléias acorreram naquele momento. O número de pessoas só aumentou até as 20h30, momento em que, por exaustão, vim para casa, escrever, mandar fotos e recuperar as forças. Mais não digo para evitar criar histórias e supor autoridades.

Yuri
Estudante da Universidade de São Paulo

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