quinta-feira, 11 de junho de 2009

Relato - Daniel Belik (aluno)

Quando cheguei na frente da reitoria, um pouco antes das 14h do dia 9 de junho os motores dos dois caminhões de som já estavam aquecidos. os auto-falantes a pleno vapor tentavam aglomerar os estudantes e funcionários para que organizassem em comboio rumo ao portão 1 da universidade- O chamado trancasso onde o objetivo, ao que tudo indica, era interromper o fluxo de veiculos no cruzamento da saída da USP. Segundo os organizadores as fotos ficariam melhores e fariam mais propaganda se todos se prostassem atrás do caminhão e não na frente e dos lados como estava acontecendo. As palavras de ordem também se dirigiam aos que estavam nas calçadas e nos gramados para que ocupassem a rua. As pequenas transgressões alimentavam o movimento: os carros que não podiam passar, os estudantes fantasiados e as flores que contrastavam com a dureza e uniformidade das ruas e dos unifromes policiais. A guarda universitária se mobilizava incansavelmente alternando os fluxos das pistas e travando entradas para que os carros não viessem de encontro com os manifestantes. Estes mesmos manifestantes que reivindicavam com bandeiras e cartazes pela reformulação do projeto da Univesp, que apoiavam uma educação pública e de qualidade andavam comendo e panfletando deixando rastros no chão a medida que eram usados ou lidos.
Não sei ao certo o que ocorreu no ato do portão 1. Sei que durou em torno de duas horas com discursos e mostras de desprezo pelos policiais que se enfileiravam pacificamente evitando confronto. Logo antes do por do sol a turma se dividiu ao que uns insistiam em rumar para a Av Vital Brasil enquantoutros já grupo coeso voltavam para frente da reitoria.
Como num passe de mágica a correria e o medo se espalharam pelas ruas de nossa universidade. Eu estava admirando a passeata de cima do Paço das Artes e vi claramente depois de soltada a primeira bomba, umas dez viaturas da polícia militar passarem pelo portão queimando pneus. Logo em seguida uma trupe de motos também se enfileirou na Av. da universidade. A bicicleta é de fato um meio de transporte liminar dentro desta cidade-monstro. Ao mesmo tempo que nas ruas a todo tempo os ciclistas sentem-se ameaçados e indefesos frente á velocidade dos carros e as ultrapassagens 'tirando fina' eles tornam-se uma categoria bem vista pelos cidadãos (incluindo policiais). Pude deste modo passar entre a barreira de carros e motos e escudos que cobriam o asfalto e seguir para a frente da reitoria. Chegando lá uma guerra estava em processo. A tropa de choque realizava suas formações táticas já bem conhecidas historicamente como que se treinasse na academia atirar em alvos estáticos. A diferença é que aqu a brincadeira parecia mais diertida. Os alvos se mexiam, corriam, gritavam e se desesperavam. O sorriso que flagrei na cara de três policias enquanto atiravam uma bala de borracha em um colega ao meu lado ficaram marcados em minha memória e dúvido que se apagarão tão cedo. As bombas de gás eram lançadas desordenadamente atingindo desde a praça do relógio até o vão da Faculdade de História. Alguns feridos e a fumaça das explosões no ar ilustravam um cenário de guerra. Que eram os inimigos? Quem eram aliados?
A reitora assistia televisão.
No final da tarde instaura-se uma assembléia dividida entre os que queriam fazê-la dentro da História e os que queriam fazer na rua já obstruida por cadeiras e galhos de árvores. Fui embora as 22:30h por fadiga. Até este momento umas trinta pessoas já haviam falado ao microfone conectado ao megafone. os presos políticos haviam sido libertados. Todos estavam insatisfatoriamente felizes por ouvir que outros companheiros estavam bem. Na rua ou não este episódio certamente entrou na História da Universidade de São Paulo.
Conversando com alguns jornalistas, abre-se todo um novo campo de reflexões. Aborrecidos, eles se revoltavam contra os estudantes que impediam fotografar a assembléia e queriam tirar o filme das filmadoras. Quando percebi estava dialogando indiretamente com quatro jornalistas que estavam atrás dos fotógrafos do Estadão. No final perguntei a eles se tinham estudado na USP. Não, responderam. Não tivemos este privilégio.

Daniel Belik
Estudante de Ciências Sociais da Universidade de São Paulo-FFLCH-USP

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