quarta-feira, 10 de junho de 2009

Relato - Jacqueline (aluna)

Titubeei muito antes de seguir para o portão um. Apesar da minha posição contrária a presença da PM no Campus, fiquei me perguntando acerca do método, se seria necessário um “trancasso” para demonstrar tão posição.
Enfim, fui.
O ambiente parecia amistoso. Todos cantavam, pensavam rimas, que às vezes não rimavam, e depositavam suas flores nos pés da força tática da PM, que se posicionou numa das calçadas, sempre muito silenciosa e estática (opa, consegui uma rima!). No fim da tarde, um impasse surgiu (como o Chiquetto descreveu). As discussões, as propostas levadas à votação e a dificuldade de se obter um resultado objetivo dos votos performatizou cisão (estrutural e momentânea) no movimento. Nesse momento, a PM (o alvo) desapareceu por completo. Todas as falas e as rimas não rítmicas eram dirigidas aos líderes do próprio movimento.
Enquanto negociações calorosas circundavam a multidão reunida frente ao caminhão de som, mais ao fundo, alguns manifestantes insistiam num confronto com os policiais da força tática que continuavam próximos da calçada. As palavras de ordem, as rimas não rítmicas cederam espaço para palavras de um fundo mais jocoso e irreverente, os manifestantes tentavam descobrir a identificação dos policiais, perguntavam sobre as esposas que ficavam sozinhas em casa para que eles pudesse invadir a universidades. Todo esse ambiente parecia não afetar a força tática que permaneceu estática (mais uma rima!).
E como o Chiquetto mesmo descreveu, o resultado das negociações separou os manifestantes. Uma parte seguiu para a reitoria e a outra permaneceu em frente ao portão. Eu fiquei entre os que voltaram para a reitoria. Quando eu estava próxima da rotatória em frente ao bandejão, percebi três viaturas que em alta velocidade se dirigiram para o Portão 1. Logo depois ouvimos as primeiras bombas. Alguns manifestantes começaram a gritar pedindo para que todos voltassem para o portão. O caminhão deixou a reitoria e começou a voltar. Todos nós começamos a correr no sentido do portão 1. Entre os líderes do movimento sindical começou uma discussão, um deles dizia: “vamos invadir a reitoria agora, é uma forma de garantirmos a integridade física dos demais” outros dois gritaram: “não, agora temos que correr e defender nossos irmãos, depois pensamos na reitoria”.
O grupo de manifestantes que estava na reitoria,corria muito. Na rotatória, próximo ao Cepeusp, formou-se uma barreira de pessoas para tentar conter o fluxo dos carros e garantir que os manifestantes passassem. Não demorou muito para que um carro que participava do ato passasse por nós com um estudante ferido.  A frente de nós, na direção do portão 1, havia muita fumaça. Eu consegui chegar apenas até a Faculdade de Educação, nesse momento fomos alcançados pela multidão que vinha do Portão 1 e que corria num sentido contrário ao nosso. Um líder, no caminhão de som, pedia para que todos se mantivessem calmos e para que não corressem. Eu tentei. Impossível não correr nesse momento!
Bom, enquanto todos seguiam em direção a Reitoria, eu pensei em me dirigir para a FFlCH, para covardemente, fugir da PM. Quando cheguei à História havia outros fugitivos por lá. Percebemos que os professores da Adusp estavam reunidos no auditório. Corremos e avisamos acerca da situação. Todos abandonaram a sala e correram em direção a Reitoria. Quando voltava para a reitoria por trás, vi toda a multidão correndo na direção da FFCLH, dentre estes, muitos professores (alguns da Sociais, inclusive).
Ficamos no prédio da História, uma barricada de bancos e carteiras foi montada como forma de resistência. A quantidade de helicópteros aumentou consideravelmente. Contei seis deles sobrevoando a FFLCH. Recordo-me de ter visto essa mesma quantidade de helicópteros apenas na visita do Papa e do Bush a São Paulo. Fiquei um tempo em silencio, ouvindo o barulho das bombas, sentindo um ardido diferente nos olhos e tentando acreditar em tudo que havia visto. Fiquei apenas até as 19h, não esperei o inicio da assembléia.
A experiência de hoje me permitiu renovar noções como vulnerabilidade, dissolução, unidade e flexibilidade.
E me fez perceber ainda, que preciso me preparar fisicamente para correr da policia.
Jacqueline, (09/06/2009)

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