segunda-feira, 1 de junho de 2009

Livro amarelo de fogo

Sinto uma afeição por livros. Não se trata (normalmente) de impulso consumista ou colecionismo.

Não consigo manter minha estante arrumada. A cada semana, cinco ou seis livros saem, entram na mala, ficam na cabeceira da cama, ficam abertos ou marcados com pedaços de papel,marcadores, palitos de dente. O livro(-objeto) é para ser vivido e viver. Ser lido, tocado, cheirado, colocado no mundo e não é nada grave uma ou outra mancha, um amassado. Não que não se deva ter cuidado, mas não se pode aprisioná-los.

Senti uma espécie de ciúme e indignação quando visitei uma livraria e encontrei uma pilha de livros amarelos, talvez recém-editados. De todos os fogos, o fogo, do Cortázar.

Esse livro me foi recomendado há vários anos. Disseram e acreditei, que era um livro que seria importante para mim, pelo seu conteúdo, suas questões e seus fogos. Lembro de percorrer sebos e sites e bancas de rua. Nunca encontrei o livro. Tão querido quanto ele foi o Orientação dos Gatos, do mesmo autor, que foi objeto da mesma busca incessante. Aguardei alguns meses até ele chegar à minha casa, um livro velho, úmido e único.

De todos os fogos o fogo, acabei encontrando na estante da Carla e do Bob, em uma de nossas visitas. Por alguns minutos ou horas, devorei-o como se fosse a única chance que teria. E foi assim porque foi. Sempre que volto à casa deles, vejo na estante aquele livro velho que parece surgido da terra.

Quando vi a pilha amarela, a princípio senti uma emoção que logo se desfez. Aqueles livros vieram da editora e não da terra. Estavam lá para serem vendidos e não descobertos. As letras eram só a impressão do fogo, e não o fogo em si.

Peguei um exemplar e li. Enquanto esperava ela chegar para vivermos, aí sim, todos os fogos, o fogo.

5 comentários:

  1. Ontem mesmo reli um conto desse livro. É o primeiro — "A auto-estrada do sul" —, que é também o que escolhi para ser abordado no meu ensaio dissertativo.

    Dos livros que li desse mestre argentino, considero um dos melhores. Tenho um afeto grande também pelo História de cronópios, acho que por ter sido meu primeiro — quem sabe.

    Ah...Cortázar...!

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  2. eu adoraria poder falar simplesmente
    "é o fetichismo da mercadoria"
    e dar uma rizada maléfica,
    mas não é o caso.
    infelizmente.

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  3. e não valia a pena ter nessa hora um impulso consumista?

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  4. Cortázar... Dele só ouvi comentários até agora.

    Mas, como é minha primeira passada aqui, deixo registrado: tua escrita combina contigo.

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  5. ps: eu tenho 5 livros do cortázar, entre eles esse daí, o "todos los fuegos, el fuego"(o único em espanhol).
    O engraçado é que todos forma presente da aline.
    e eu não li nenhum.

    a aline sempre repete os autores. do neruda eu ganhei 3. mas esses eu li.

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