domingo, 13 de setembro de 2009

11 de setembro

Dizem que o Palácio da Moeda, em Santiago do Chile, tem cheiro de laranjas.

Há 36 anos, o sangue de um homem chamado Salvador marcou o chão desse palácio.

A partir de então, e por 17 anos, no Palácio viveu Augusto, que passou a colecionar mortes.

O sangue de Salvador, sob os pés de Augusto, não secava nunca. O sangue de Salvador multiplicava-se pelas paredes e pelo teto.

O Palácio da Moeda tornou-se apenas sangue, e aos poucos toda a cidade e todo o país era sangue.

Em poucos meses, todo o país foi povoado com o sangue de dezenas de milhares de pessoas, mortas e torturadas sob suas botas de militar.

Em poucos meses, a terra jorrava sangue quente e cada vez mais vivo. Não houve luto, não houve fim.

Augusto, sob o calor de tantas vidas, era o único que apodrecia. Seu corpo era frio, inerte, inexpressivo. Sua carne apodrecia sem morrer.

Augusto, um homem como qualquer outro homem, cobriu o chão de sua pátria com o sangue pulsante de seus conterrâneos. E carregando tantas chagas, sorria ao sentir o cheiro das laranjas.

Não sabemos se conversava com seus fantasmas. Não sabemos se pedia para Victor tocar canções em um violão de sangue. Não sabemos se sentia o gosto das laranjas ou o gosto de terra e lágrimas.

Sabemos que sua carne apodrecia naquele sem fim.

Augusto precisou depôr. Abandonou o Palácio e despediu-se das laranjas. Todo aquele sangue pôde, aos poucos, penetrar pelo chão do Chile e povoar a terra.

O Chile carrega na terra o sangue vivo de Salvador e de todos os outros. Pela salvação da terra, o sangue permanece vivo: o chão não poderia suportar o luto.

Augusto desapareceu, esqueceu. Esqueceu o inesquecível: o seu sangue era o único sangue seco, velho e apodrecido.

Tinha nos bolsos muito ouro, e um documento que lhe atestava a insanidade. Nunca julgou-se, não pôde ser condenado.

Augusto José Ramón Pinochet Ugarte estava morto. E na tarde de 10 de dezembro de 2006, a última gota de sangue lhe seca o coração, enfim.

O Chile de sangue, sangue de Allende e Victor Jara, sangue das milhares de pessoas mortas no estádio Chile, esse Chile sonha com a liberdade e nutre-se com o sangue que a terra jorra.

Esse Chile é uma paloma e canta livre os golpes sofridos há 36 anos.

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